28 setembro 2008

Vivo o meu país...






Vivo o meu país atravessado no peito,
onde do alto de serranias avisto paisagens de belezas invulgares
e fico estupefacta, como foi possível, que muitos dos meus irmãos antepassados pudessem ter vivido nos socalcos por eles construídos naquelas montanhas, tendo como abrigo as suas humildes casas de pedra, isolados de todo um mundo, não muito longínquo mas que lhes era negado.
Ali nasciam, ali constituíam as suas famílias e ali trabalhavam para o sustento de todos!
Tinham a envolvê-los aqueles imensos horizontes com odor a solidão, a que se habituavam sem queixumes e de que modos se conformariam!
Para se deslocarem, percorrendo quilómetros e quilómetros, tinham apenas os seus pés doridos para, por entre declives e penhascos, encontrarem apenas um pouco do quase nada que lhes pudesse dar um pouco mais de sabor às suas vidas agrestes.
Continuo a minha viagem por entre as mesmas serranias, confortavelmente, desfrutando do que agora consideramos todos uma verdadeira maravilha, por entre o imponente arvoredo (algum, entretanto, fustigado pelas chamas do fogo invasor) e não me sai da cabeça, como seria difícil o dia a dia de todas aquelas pessoas, vivendo como que alcandoradas nas vertentes das suas vidas!
Seriam pessoas de muita fé, pois aqui e ali vêem-se pequenas igrejas onde, em romaria, pediriam ao Pai do Céu que os ajudasse a transportar as suas cruzes e os protegesse de todos os males que por desventura os assolassem!
E, assim foram vivendo, sabe-se lá como, gerações e gerações de almas, até há muito poucos anos atrás!
E, isto dói-me.
Dói-me muito, porque em muitos outros locais do meu país a maioria das pessoas vivia pobremente e também isolada do “resto do mundo”.
Mas, este outro mundo, que tento descrever agora, que nos últimos dias me deslumbrou com todo o seu encanto ímpar, situa-se bem no centro do meu país, não muito distante de cidades de cultura e saberes e de outras onde o desenvolvimento coexistia!

Ailime
27.09.2008





Imagens tiradas da Net

20 setembro 2008

Vento Suão


Percorro-te por entre as searas
Ondulantes dos sonhos
Que um dia inventei

A aragem seca do vento suão
Paralisa-me os movimentos
E não consigo deter-te

Chamo-te, mas a voz sufocada
Tarda em sair e
O vento suão já serenou

Olho as searas ondulantes

Dos sonhos que um dia inventei
E não te vislumbro

Quero correr, gritar, agarrar-te
Mas o vento suão voltou
E desfez a seara ondulante...


Dos sonhos que um dia inventei

Ailime, 19.09.2008

13 setembro 2008

A Parábola do semeador



“Naquele dia, Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar.
Reuniu-se a Ele uma tão grande multidão, que teve de subir para um barco, onde se sentou, enquanto toda a multidão se conservava na praia.
Jesus falou-lhes de muitas coisas em parábolas: «O semeador saiu para semear.
Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho: e vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra: e logo brotaram, porque a terra era pouco profunda; mas, logo que o sol se ergueu, foram queimadas e, como não tinham raízes, secaram.
Outras caíram entre espinhos: e os espinhos cresceram e sufocaram-nas.
Outras caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta.
“Aquele que tiver ouvidos, oiça!”
Aproximando-se de Jesus, os discípulos disseram-lhe: «Por que lhes falas em parábolas?»
Respondendo, disse-lhes: «A vós é dado conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não lhes é dado.
Pois, àquele que tem, ser-lhe-á dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado.
É por isso que lhes falo em parábolas: pois vêem, sem ver, e ouvem, sem ouvir nem compreender.
Cumpre-se neles a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis; e, vendo, vereis, mas não percebereis.
Porque o coração deste povo tornou-se duro, e duros também os seus ouvidos; fecharam os olhos, não fossem ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, compreender com o coração, e converter-se, para Eu os curar.
Quanto a vós, ditosos os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem.
Em verdade vos digo: Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e não viram, e ouvir o que estais a ouvir, e não ouviram.»


Do: Evangelho, segundo S. Mateus, 13
In Bíblia Sagrada

07 setembro 2008

Os jovens e a missão

Para todos os meus amigos e, em especial, para o grupo de cerca de trinta jovens da minha comunidade paroquial, que se encontra em missão algures numa aldeia em Portugal, onde foram levar um pouco do seu amor, da sua alegria, junto dos irmãos que vivem mais isolados e tristes, e mesmo doentes, em jeito de homenagem, deixo a letra de um cântico que algumas vezes entoam nas celebrações dominicais e que aprecio bastante:


"O Teu sopro achou-me dormindo na minha jangada,
Pois vieste como terna brisa
pela madrugada.
Acordei e embalei-me no
vento em que não me prendias.
E sorrindo entreguei-Te a
vontade de todos os dias.

De repente a jangada cresceu
e tornou-se cidade,
Já pequena demais para
acolher a gente que a invade.
Nas mãos sentimos
Teu fogo abrasar corações.
Tua palavra é esperança que em nós
se transforma em canções.

Tu me embalas quando me persegues
E me impeles mesmo
enquanto me recebes.
Tu me embalas no que me concedes
E me guias para onde me precedes.

Já não posso tranquilo dormir
nem parar um momento.
No caminho impossível demais,
se vai contra o Teu vento.
No Teu mar aprendi que ser
rico é dar o que sou,
Pois recebo o que dou,
se me entrego no que em mim ficou”.

Autor: Desconhecido
Publicado “in Livro de Cânticos da Igreja Paroquial de
A.M.M.M.

30 agosto 2008

O choro da acácia


Olho pela janela da sala onde me encontro neste momento e os meus olhos já não descansam no verde da acácia, que com a sua majestosa sombra protegia este espaço do calor intenso nos dias de estio mais rigoroso. Parecia uma cortina verde, enorme, a proteger-nos e a envolver-nos, como se estivéssemos em plena floresta!
O próximo Inverno também vai ser diferente sem a acácia que eu tanto amava, que depois de uma boa chuvada, ficava linda, com as suas pequenas flores amarelas, que pareciam estrelinhas a brilhar, por entre as ramagens ainda molhadas pelas gotas de água da chuva, acabada de cair.
Sim, junto à minha casa existia uma acácia, um pinheiro manso e uma nespereira.
Isto pode parecer estranho, mas é a pura verdade!
Tinham sido plantadas há cerca de trinta anos em“dias mundiais da árvore”, com muito carinho, por grupos de casais vizinhos que com seus filhos, muito pequeninos à época, se juntavam nesses dias, para dessa forma os sensibilizarem da importância da plantação de árvores para preservar o meio ambiente e também contribuir para o alindamento da paisagem envolvente, um pouco inóspita à época.
Assim, no nosso pequeno jardim, fui vendo crescer o pinheiro, a acácia e a nespereira!
A acácia e o pinheiro tiveram um triste fim.
Alguém achou que as árvores estavam a prejudicar este local e que o prédio de habitação poderia ter problemas causados pelas suas raízes!
E vai daí há cerca de dois meses cortaram a acácia e o pinheiro manso. Restou a nespereira para nosso consolo!
Agora poderão imaginar como ficou este espaço…como ficou a minha alma!
Todos os dias quando passo ao lado do grande cepo da acácia sinto uma enorme angústia invadir todo o meu ser!
E a minha alma grita: - como foi isto possível ?
Sim, foi possível e aconteceu numa vila dos arredores de Lisboa, em pleno século XXI.
Agora, a acácia como que querendo renascer, quem sabe talvez resistir, brota rebentos por todo o lado.
Ainda não sei o desfecho desta mutilação...
...mas que a acácia chorou, chorou.
Ailime, 30 de Agosto de 2008

23 agosto 2008

A minha reflexão para este Domingo


Uma pérola que encontrei, que ofereço aos meus amigos, neste fim de semana:

"Para chegares a saborear tudo,
não queiras ter gosto em coisa alguma.
Para chegares a possuir tudo,
não queiras possuir coisa alguma.
Para chegares a ser tudo,
não queiras ser coisa alguma.
Para chegares a saber tudo,
não queiras saber coisa alguma.
Para chegares ao que não gostas,
hás-de ir por onde não gostas.
Para chegares ao que não sabes,
hás-de ir por onde não sabes.
Para vires ao que não possuis,
hás-de ir por onde não possuis.
Para chegares ao que não és,
hás-de ir por onde não és.

Modo de não impedir o tudo:


Quando reparas em alguma coisa,
deixas de arrojar-te ao tudo.
Porque para vir de todo ao tudo,
hás-de negar-te de todo em tudo.
E quando vieres a tudo ter,
hás-de tê-lo sem nada querer.
Porque se queres ter alguma coisa em tudo,
não tens puramente em Deus teu tesouro. "


Pensamentos de São João da Cruz extraídos do
livro "O Amor não cansa nem se cansa" .

Etiquetas:

Pensamentos, reflexões, amor, dádiva

19 agosto 2008

Esboço de vida




Minha vida em pedaços vou traçando,
nas pedras e areias das margens
dos rios, por mim inventados.

Ouço o suave bater das águas,
no entardecer do Outono,
em que vivo o avançar da idade.

O crepúsculo acerca-se
e, mansamente
vai-se instalando em mim.

Tento libertar-me e corro
desenfreada, pelas margens dos rios,
por mim inventados.

E, sob o sol ainda ardente,
teimo em aprisionar os raios da luz,
que ainda me cingem a Ti.

15 agosto 2008

O Céu

"O céu colabora na nossa vida íntima, vive connosco, acompanha-nos na mudança do nosso ser; é um confidente, é um consolador; invoca-se, fala-se-lhe. Olhar o céu é, nos nossos climas, uma ocasião de viver: instintivamente, voltamos para ele os nossos olhos. O poeta meridional, cheio de imagens e de cores, contempla-o; o burguês trivial admira-o; pela manhã, abre-se a janela e vai-se ver o céu! É um íntimo sempre presente na nossa vida; o nosso estado depende dele: enevoado, entristece-nos; claro e lúcido, alegra-nos; cheio de nuvens eléctricas, enerva-nos. É no Céu que vemos Deus... E mesmo despovoado de deuses, é ainda para o homem o lugar donde ele tira força, consolação e esperança. A paisagem é feita por ele, a arte imita-o, os poetas cantam-no. "

De: Eça de Queirós, in "O Egipto"